21 de maio de 2012

Como você mesmo gostaria de ser tratado?

Por: Romildo Gonçalves dos Santos Júnior
O que faz valer a vida são os nossos afetos. O amor e a busca pela felicidade estão no centro dos principais sistemas filosóficos e no centro das principais religiões. O amor a Deus, para quem acredita, e o amor incondicional dos pais pelos filhos e dos filhos pelos pais. Entre amigos. Pelo próximo, que é essa benção representada pela fraternidade. O amor próprio, que nos dá paz e segurança no curso da vida, porém, não um amor narcísico que é o amor que se basta a si próprio. Por fim, e por mais importante que é o amor apaixonado que é de um homem por uma mulher, de uma mulher por um homem, de um homem por outro homem e de uma mulher por outra.  
A vida boa é feita dos nossos afetos. A vida boa é feita dos nossos prazeres legítimos. A vida boa é feita do direito de procurar a própria felicidade, de modo que, o que objetivo neste texto é mostrar que qualquer maneira de amar vale a pena e pronuncio a consequência natural desta constatação: ninguém deve ser diminuído nesta vida pelos seus afetos e por compartilhar seus afetos com quem escolher.
O amor Homossexual é vítima de preconceitos ao longo dos séculos e cito aqui três fatos emblemáticos:
- Primeiro: por volta de 1521 as ordenações manuelinas previam que os homossexuais deveriam ser condenados à morte na fogueira, ter os seus bens confiscados e duas gerações seguintes da família dele seriam infames;
- Segundo: em 1876, Oscar Wilde escreveu um poema belíssimo intitulado O amor que não ouso dizer seu nome no qual confessa a sua paixão homossexual. Ele foi, por isso, condenado a dois anos de prisão e a trabalhos forçados. Isso tudo, apenas, em razão dessa poesia e de sua orientação sexual;
- Terceiro: na década de 70, um soldado americano condecorado na guerra do Vietnã assumiu sua homossexualidade e, por razão disso, foi sumariamente desligado das forças armadas e, em razão disso, profere uma frase ontológica: por matar dois homens fui condecorado, por amar outro fui expulso das forças armadas.
Essa é a história de um preconceito que vem ao longo dos séculos. Mas a história da civilização é e deve sempre ser a história da superação dos preconceitos. Em cada momento da história as pessoas sempre precisam escolher de que lado estarão: se vão avançar o processo social e incluir a todos ou se vão parar com o processo social e cultivar o preconceito.
Desse modo, podemos perceber como esse tipo de escolha é feita ao olharmos para traz, onde vemos milhões de judeus sendo massacrados em campos de concentração. Milhões de negros que foram transportados à força em navios negreiros. Mulheres que atravessaram os séculos oprimidas moral e fisicamente pelas sociedades patriarcais. Deficientes que foram sacrificados. Tribos indígenas inteiras dizimadas. Sempre em cada fase da vida, em cada fase da história, existe sempre uma racionalização para justificar o preconceito. Mas é possível também julgar tudo isso olhando para frente e não para traz, olhando para a criação de um mundo melhor, em uma sociedade mais justa, de um tempo de fraternidade, de um tempo de delicadeza, um tempo em que todo amor possa ousar dizer o seu nome.
             Portanto, concluo com o argumento que me parece mais importante, que é a regra de ouro: Trate os outros do modo como você mesmo gostaria de ser tratado. Pessoalmente falando, pretendo um dia ser pai. Desejarei educar meus filhos dentro de uma cultura convencional, dentro de uma tradição heterossexual porque o humanismo não me permite que eu seja hipócrita, e, portanto, a vida integrada à maioria é um tanto mais fácil. Porém, se a vida por seus desígnios levasse um de meus filhos a um caminho diferente, eu certamente o trataria com respeito e gostaria que ele fosse tratado dessa forma também pelos outros. Com igual respeito e consideração! Que fosse acolhido por um ordenamento jurídico e que pudesse viver em paz, em segurança e ser feliz. É isso que eu desejo aos meus filhos. Evidentemente é isso que eu devo desejar também aos outros e aos filhos dos outros. Esta é a regra de ouro, que está no coração do judaísmo, no coração cristianismo, da ética kantiana, na boa fé objetiva e é, sem dúvida, a única maneira de se fazer cumprir o bem.

3 comentários :

Jonas J. Berra disse...

Caro Romildo,
Em seu texto, que se faz dialogando consigo mesmo, percebemos como esse assunto é importante. Defender a dignidade para as pessoas. Deixá-las viver. Não importa se concordamos ou não. Há momentos em que nossa visão de muindo é limitada e é importante calar. É difícil saber em que momento isso é preciso ser feito. Muitas religiões não avançam e também não calam. Nos resta esperar. Quem sabe viveremos para ver pessoas pedindo perdão em nome das instituições que ridicularizam e marginalizam algumas grupos humanos.

Everton Marcos Grison disse...

Um texto sensível. Cabe lembrar também a proposta ética de Jürgen Habermas (Filósofo Alemão, ainda vivo e componente da Escola de Frankfurt), que defendia uma ética do discurso juntamente com o reconhecimento recíproco. Para o assunto aqui tratado, interessa o fato do reconhecimento do outro como pedra de toque para efetivar minha individualidade. Necessitamos dos outros sejam; gays, lésbicas, transsexuais, homossexuais, heterossexuais. O que ocorre, a meu ver, é que muitas instituições, religiosas e não religiosas, não permitem nem o dialogo, ferramenta fundamental para o reconhecimento reciproco e para a ética do discurso. O simples posicionar-se contra pelo fato de que a "igreja" diz que é contra, soa a meus ouvidos como pequenez de pensamento. Podemos até voltar a Platão no mito da caverna (A Republica Livro VII), no qual indivíduos estão presos no fundo de uma caverna, observando as sombras projetadas na parede e achando que a verdade é aquilo que lhes aparece. As vezes as "religiões" (no sentido mais amplo possível do termo) fazem isso; colocam viseiras de cavalos em olhos humanos, permitindo-lhes a visão de um ponto e sob um ponto. Olhar para o lado é pecado. Devemos reconhecer o outro como pessoa humana, como ser. Se ele é isso ou aquilo, diz respeito a ele. Espero ainda presenciar a hipótese lançada pelo Jonas; "Quem sabe viveremos para ver pessoas pedindo perdão em nome das instituições que ridicularizam e marginalizam algumas grupos humanos".

Romildo Júnior disse...

Esse texto foi fruto de uma indignação a partir de uma fala preconceituosa de um coléga que dizia: "não deve haver a liberação para união homoafetivas.. Se eles querem isso que vão para um lugar aonde todos são assim..." Depois disso me perguntei, se eles pagam seus impostos, cumprem com sua obrigações legais porque eles não podem requerer seus direitos como cidadão de estrutura convencional!?... Isso é irritante, nos faz ainda que coloque-mo-nos na seguinte indagação: "Será que este tipo de intolerância é apenas moral ou é de repressão a si mesmo, ou seja, será essa fala um reflexo de recalque? Inveja? Ou ainda, não será uma forma de vontade de assasinar o homoxesualismo reprimido dentro de si?".