3 de março de 2012

"Fogo Amigo" - Querem a falência dos professores de Filosofia e Sociologia.

Por: Everton Marcos Grison

          Isso mesmo, fogo amigo e muito quente por sinal. Me admira, fico perplexo, com raiva, emputecido. Descobri hoje, por intermédio da minha esposa, que há uma IDEIA rondando a educação de redução da carga horária das matérias de Sociologia e Filosofia no Paraná. Qual o motivo? Acreditem, não é piada; descontentamento dos professores da áreas de PORTUGUÊS, MATEMÁTICA e BIOLOGIA.
          Com a volta de Filosofia e Sociologia a compor a carga horária nas escolas, esta matérias tiveram redução de suas cargas horárias. Sinceramente caros companheiros de categoria educacional... Com certeza muitos professores das referidas áreas do saber pensam diferente e espero que eles sejam maioria sendo contra, a diminuição de duas aulas para uma aula somente de Filosofia e Sociologia. O que faremos com uma aula? Nada. Aliás, já se faz muito pouco com duas aulas, pois existe uma disseminação de educadores, professores de outras áreas que se atrevem a "pegarem" as aulas de Filosofia e Sociologia para preencher suas cargas horárias ou porque não tem professor da área. Quanto ao fato de não terem professores da área isso é muito questionável, pois se formam muitos alunos em universidades públicas e federais todos os anos e eles não conseguem trabalho, porque não tem aulas. Bom, se tem profissional e não tem aulas alguma coisa está errada. Quem está dando estas aulas que deveriam ser ministradas por professores formados na área? Me revolta, pois num país que muitos estufam o peito para falar de crescimento, de progresso, isso é um dos mais nefastos retrocessos possíveis e pensáveis.

          A crítica de que Filosofia e Sociologia não servem para nada é recorrente e acaba tendo um grau de verdade. Um estudante destas áreas passa de 3 a 4 anos estudando mais de mil anos de história, de produção de conhecimento, lê muito, escreve, reescreve. Certo, está ele no final do curso com seu canudo na mão e uma baita vontade na cabeça de dar belas aulas, de mostrar como pensar é legal, como pensar com autonomia é mais interessante. Que pensar não é ruim e NÃO DÓI. Quando ele vai para o mercado de trabalho não tem aula, por quê? Porque outras áreas "roubaram" nosso direito de trabalhar. Aí os alunos acabam tendo aula de opinião, discutindo recortes de jornais e opinando. FILOSOFIA e SOCIOLOGIA NÃO MERAS OPINIÕES BARATAS. Além de algumas áreas roubarem nosso direito de contribuir para a educação, colegas de Português, Matemática e Biologia querem reduzir ainda mais este direito, direito de dar aula, de mostrar que Descartes era um matemático e filósofo. Mostrar que muitos biólogos foram filósofos também e que na língua portuguesa boa parcela dos intelectuais tinham um direcionamento filosófico. Querem assaltar nosso direito de viver. Pois resta apenas à Filosofia e Sociologia a docência, querem diminuir isso também, então imaginem o que nos sobra: pedir dinheiro no sinal, trabalhar como vendedor em livrarias doando conhecimentos acumulados durante anos de estudo para garantir vendas extras e ser um ótimo vendedor. Sim, é isso mesmo. Não desmerecendo os vendedores é claro,  pois é uma categoria solapada pelos patrões, mas nos sobra isso depois de anos de estudo e gastos, por sinal muitos gastos com livros, material e com o ideal que um dia a realidade pode mudar. Que conseguiremos construir uma sociedade pensante, autônoma, viva. Enfim, continuaremos adiante, até quando der. Visualizo sim o lado dos professores destas áreas que tiveram suas cargas horárias diminuídas, mas o discurso de redução da carga horária de Filosofia e Sociologia é outro. Por trás disso está uma ideia disseminada de produzirmos alunos que não pensem, apenas executem tarefas. Professores vomitam um monte de informações, alunos recebem isso e copiam no caderno. Com certeza o diagnóstico de Hamilton Werneck (2002) em seu livro é verídico: "Se você finge que aprende eu finjo que ensino". Estamos produzindo uma educação de fingimento e isso já está com bolor. Querem produzir robôs humanizados. Penso que é este o principal motivo pela polêmica além é claro, da redução das horas aulas das três matérias já citadas. Logo abaixo segue o link da matéria que esta no site do Sindicato dos Professores do Paraná. 

6 comentários :

Jonas J. Berra disse...

Infelizmente é isso que ocorre. Professores de história e pedagogia pegam as aulas de filosofia. Se um professor de filosofia dá aulas de outra disciplina é acusado de não ter preparação. Contradições e minha pouca fé na melhoria da educação! Voltamos ao governo Lerner, voltados ao pensamento utilitarista/capitalista!

Francine Cruz disse...

Texto muito bem colocado. A educação no país está regredindo ao invés de progredir. Mas, continuamos na luta!

PROF. EDINEI M. GRISON disse...

Louros a matéria!

Conclui meu curso de filosofia em 2007. Especializei-me em psicologia e práticas sociais em nível de pósgraduação latu senso, estou em processo de licenciamento para atuar como sociólogo. Muitas foram as alegrias e mais ainda as tristezas pelo que encontrei em Santa Catarina, referente a docência da filosofia e da sociologia. Lamentável e catastrófico. Abrir sulcos neste espaço cristalizado quase me custou...

Todas as problemáticas que o texto de meu irmão de sangue aponta são calos em minha couraça em luta pelo espaço do filósofo e do sociólogo em sala de aula.

Todos os profissionais por excelência que são as direções e gestores educacionais das escolas são os criminosos pelo descaso do ensino da sociologia e da filosofia e é claro, muitos outros atores...

Recentemente participei de um seminário que discutia o ensino da sociologia nos níveis fundamental e médio e muitos foram os desafios encontrados para se oferecer uma docência de qualidade e com espaços para se pensar. Uma tendência de sintetizar a presença do filósofo e do sociólogo é marcante na educação brasileira.

A banalização das humanidades no ambiente escolar configura um espaço líquido de referências que tem como lei volaticidade. Quem em sala de aula foi mais longe no ensino da sociologia leu Mundo Jovem (sem desmerecer o conteúdo de tal revista).

As disciplinas só não foram banidas da grades curriculares pelo mísero amparo legal que as constitui parte integrante do ensino de muitos jovens brasileiros. A banalização destas áreas do conhecimento é critante.

A degradação que assola a sociedade brasileira desenha sua anatomia na educação, na sala de aula e no ensino....Lamantável...A educaão brasileira não é capaz de produzir transformações significativas em grau de se conferir mudança...

É necessário que uma nova racionalidade ecloda.

Anônimo disse...

Everton, fantástico, você conseguiu traduzir em palavras a minha indignação com essa possibilidade. Sou professor Licenciado em Filosofia, e sinceramente, isto tolhe o direito de pensarmos uma educação emancipatória, na qual o aluno seja um sujeito pensante, autônomo e cônscio do seu poder de transformação!
Parabéns pelo artigo!
Que seja uma centelha a virar fogo nos professores formados em filosofia, para não deixarmos esse retrocesso acontecer!

Everton Marcos Grison disse...

Fico agradecido pelos comentários de Edinei Grison assolado pela sacanagem que fazem com a educação e com todos os envolvidos, principalmente os professores. Também agradeço a exposição de Francine Cruz que sofre na dura rotina de dar aulas de Educação Física debaixo do sol escaldante de Curitiba, ou tendo que correr da chuva, ou ainda, enfrentando outros problemas que eu chamo de "burrocráticos". Obrigado também pelo comentário do Jonas Berra, criador deste blog que hoje mesmo eu vi rouco pelo fato de trabalhar muito em sala de aula, também maluco como todos nós que ainda acreditam nas "utopias" da Educação Brasileira. Agradeço a pessoa não identificada que também comentou e expôs seu sentimento de indignação. Este é um campo que precisa sangrar muito ainda para vermos de fato melhoras. Esta nossa maluquice e de todos ou loucos que se metem a dar aulas é a única coisa que mantém este "engodo" de educação funcionando. Se não fosse isso estariamos no tempo das cavernas escrevendo em pedras... O pandemônio esta instaurado, precisamos buscar o não retrocesso, se não conseguimos descobrir a receita da emancipação pelo menos, precisamos apontar que ela não aconteceu e não acontece, como pensava Theodor Adorno. Isso quem sabe pode ser uma possibilidade impulsora para pensarmos alguma mudança, mas que é difícil é...

Caio disse...

Obrigado por tornar público essa discussão Everton.