24 de junho de 2011

Prof. Jelson fala sobre seu novo livro em entrevista a Gazeta do povo

Por Jonas J. Berra


Jelson Oliveira,
Fonte: Gazeta do Povo
   
Transcrevo abaixo a entrevista que o Prof. e amigo Jelson forneceu a Vinicius Boreki, do jonal Gazeta do Povo publicado em 24/06/2011.

"Por telefone, o professor co­­men­­tou sobre seu livro e explicou os motivos da citação ao filósofo alemão Nietzsche no título. “Mi­­nha intenção era mostrar que, além do lado crítico, ele apresentou uma proposta para a sociedade de hoje. Ainda podemos ler um autor do século XIX, observando seu lado criativo/construtivo e tendo a chance de falar de um conceito urgente nos dias atuais, algo que poderia reorganizar a sociedade”, diz. Seguem trechos da entrevista:

Qual a situação da amizade no mundo contemporâneo?
Nós vivemos uma crise das instituições. Muita gente não dedica nada do seu tempo às instituições, como igrejas e ONGs. Por outro lado, há supervalorização da família. Exis­te a ideia de que a família é um ninho de amor, alheio à sociedade. Enquanto nas ruas existem problemas de segurança, na família isso não existe. E a amizade está em crise, porque as pessoas não têm tempo para se dedicar a ela. Pretende-se construir relações menos comprometedoras e menos doloridas. E toda relação é dolorida, porque não há domínio completo sobre isso.

As relações de família não podem ser consideradas como amizade?
No matrimônio, existe o critério de amizade, mas fica no vácuo do idealismo. Mesmo nas famílias, os horários não batem atualmente. As pessoas saem cedo de casa, voltam tarde, deixam de comer juntas e se relacionar. Perde-se o gosto de estar com outras pessoas e não se chega a criar uma amizade. Por isso que o bar se tornou o templo da amizade hoje. É o local em que podemos sentar e conversar. Con­­tudo, muitas vezes não se estabelecem relações amistosas nesse local, implicando em enfrentamento. E, baseado no conceito do livro, a amizade significa respeitar o outro pelo que ele é.

Ou seja, um dos problemas pa­­ra se estabelecer a amizade é a dificuldade em respeitar o próximo?
Sem dúvida. A ética da amizade implica em liberdade do espírito, capacidade de nos enfrentarmos e criarmos resistência. O bom amigo é quase um inimigo. É aquela pessoa que nos faz desconfiar das nossas certezas, nos colocando contra a parede. E a amizade é o espaço no qual as pessoas se confrontam. Para Nietzsche, é o espaço da boa disputa. Podemos disputar no sentido de guerrear com meu amigo, lutando para que nós cresçamos juntos.

Quais as dificuldades em usar esse conceito de amizade?
A amizade é um espaço de partilha da alegria. Em vez de partilhar a dor e a desgraça, deveríamos partilhar a alegria. Só que a sociedade propaga um conceito de não haver sofrimento. E isso atrofia a possibilidade de construir relações de amizade mais duradouras. A vida tem dois la­­dos: o dia escuro e o dia claro. Quem quer ficar só com o lado bom, perdeu a vida inteira.

A amizade virtual é um fenômeno típico dos dias atuais. Essas relações não tiram as pessoas do isolamento?
No fenômeno recente das redes sociais, chamam-se de amigos pessoas distantes, que você nem se­­quer conhece pessoalmente. Por­­tanto, não é necessariamente amigo de alguém. É só uma coleção de pessoas com quem se tem contato. Isso não é amizade e contribui para o hiper-individualismo atual. As pessoas usam a tecnologia para se isolar – seu próprio celular, sua própria televisão, trancadas na sua própria casa – e esquecem do enfrentamento natural à amizade.

Quer dizer que o problema está na forma de uso das redes sociais?
O Facebook, Twitter e Orkut são usados mais como uma rede de comunicação, disseminando notícias e fatos, do que como rede de relacionamento. Poucos usam para construir relações mais consistentes de amizade. As redes sociais são fenômeno do tempo das multidões. Em uma multidão, o indivíduo se anula: não enxergo a mim mesmo e nem a mais ninguém. Muitas das causas defendidas nos últimos tempos são fenômenos de multidão. Trata-se de um reflexo do mundo contemporâneo, em que a geração atual saiu de 2 bilhões de habitantes para 9 bilhões em 70 anos.

Como mudar essa panorama?
Essas relações rápidas, de certo conforto, não são um processo consciente. As relações precisam ser pensadas. Não podemos simplesmente deixar levar, sem raciocinar sobre isso. É preciso se dedicar à amizade, porque os amigos são muito importantes para forjar o nosso caráter e as opções pessoais e profissionais. Também é preciso tirar o preconceito e a desconfiança da amizade. Se mulher conversa com mu­­lher, estão fofocando. Se homem dialoga com homem, são homossexuais." (Fonte: Gazeta do povo)

Lançamento do livro Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche. Dia 1.º de julho, às 19 horas, na Aliança Francesa de Curitiba (Alameda Prudente de Moraes, 1.101, Centro). Mais informações: 41 3271-2626.

Um comentário :

Everton Marcos Grison disse...

Parece ser interessantíssima a proposta do Professor Jelson neste livro. Concordo com ele que as relações estão de certa maneira, para usar um conceito de Bauman; "liquidas", a própria condição humana pós revolução industrial passou a seguir "parametros" determinados por "empresas". Acredito que a parte em que o professor relata sobre a amizade como campo de conflito precisa ser muito bem explicada para que não cause uma confusão na relativização das relações como sendo todas de "amizade". Tomo a liberdade de citar duas passagens que achei muito interessantes: "A amizade significa respeitar o outro pelo que ele é". Habermas concordaria plenamente com isso, dizendo que necessitamos do outro para firmar uma Ética do Discurso. A segunda passagem: "Essas relações rápidas, de certo conforto, não são um processo consciente. As relações precisam ser pensadas". Eu vivo falando: as pessoas não pensam, primeiro agem e depois medem as consequências de suas ações. Acredito que se as relações fossem melhor analisadas, não teriamos "a solidão coletiva" que podemos observar; muitas pessoas em suas casas conversando ou interagindo de diferentes maneiras com muitas outras pessoas, mas sem estabelecer vinculo, sem haver troca, contato, e totalmente protegidas por uma tela de computador, um telefone, que lhes permite falar o que quiserem ser medirem as consequencias. Ao mesmo momento que estamos em contato com uma rede, estamos a sós em nossas casas, achando que temos amigos.