2 de abril de 2011

DESATENTO

Por: Malu Queiróz

-Ele pensa de outra forma, querida…

Ele nao sabe das mulheres decepadas
Com suas vaginas cortadas,
Mesmo na faca, arrancadas…


Ele nao sabe das lágrimas choradas
Das gotas de sangue derramadas
Das mulheres, que pena, espancadas…

-Ele nao sabe
-Ele nao sabe


Ele só sabe do próprio mundo seu
Do futebol que já perdeu
Das cervejas que já bebeu
Os restaurants caros que já comeu.


Ah, mas ele nao sabe…
Nao sabe das mulheres mortas
Das suas vaginas tortas!


Das criancas doentes
De comida carentes
Pobres, coitadas, sem dentes
E sem parentes…

Aquele choro alto, ele já esqueceu
Aquele rosto triste, esvaeceu.
Tao rápido assim, anoiteceu?


Que pena, já se conformou!
A morte da menina lá no lixao, já se passou.
O menino descalco no meio da rua, pra trás ficou.
Ah, mas o seu charuto caro, ele pagou!

-Com sua vidinha assim, já se contenta!
Sua futilidade, infelizmente, já o sustenta…
De coisas bestas, se alimenta,
E anta assim, se apresenta!


-Muito ocupado no dia a dia
Mergulhado, todo, na sua rotina
Contando dinheiro na padaria
-Ele tem toda a calmaria!


-E ela,
A sua bela blusa em casa costurando
O seu lindo cabelo talvez secando
As criancas pra escola sempre levando
Segue os dias assim passando
Sem ver que tem gente ainda hoje podre mendigando.


Ou talvez ele até saiba
Mas sobre isso nao quer falar.
Ou talvez ela também saiba
Mas no assunto nao quer tocar.


-Pra que tanta desgraca, se tem a praia ainda pra festejar?

E pra que tanta tristeza,
Se tem ainda a reuniao em família pra comemorar?


A lindas unhas pra pintar?

-Ir pro cinema pra namorar?

E, no shopping center, todo o dinheiro ‘inda pra gastar?

Um comentário :

Jonas J. Berra disse...

Assunto complicado Malu. Algumas vezes é questão cultural e acaba sendo difícil fazer uma crítica aceitável dentro da cultura onde isso ocorre.