4 de abril de 2011

Caso da trigêmea rejeitada pelos pais

Por: Jonas J. Berra

Em consideração à participação de um dos professores que mais se esforça em levar o conhecimento filosófico ao público em geral, que muitas vezes não vê utilidade alguma proveniente da atividade filosófica, reproduzo aqui uma entrevista muito atual publicada no jornal Gazeta do Povo do dia 03 de abril  de 2011 por Andréa Morais e encontrada  em: 
Nela, o professor Jelson Oliveira faz um diagnóstico de alguns dos atuais aspectos da relação entre pais e filhos, baseado no caso que espantou a muitas pessoas:

(...) o assunto voltou à cena, depois da divulgação da história de um casal de Curitiba que fez fertilização artificial, gerou trigêmeas, mas rejeitou uma das meninas, porque só queria duas, preterindo a que apresentava problemas de saúde. O debate que se abriu é se hoje as pessoas transformaram o ato de ter filho numa geração de consumo (...).

Fonte: Gazeta do Povo
 O lado da filosofia

Jelson Oliveira, diretor do curso de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná

O que, na sua opinião, difere o processo de geração de um filho por métodos naturais e por reprodução assistida?
O filho tinha, no passado, uma carga muito mais ligada ao sagrado ou ao natural. As relações com os filhos sempre estiveram nas sociedades primitivas, na Idade Média e até na era moderna, marcadas por certa razão de sacralidade. Hoje, essa tecnologia da geração da vida cria poucos vínculos com os filhos. Ela explica tudo e perde-se, portanto, toda a sacralidade da relação. E isso acaba afetando a maneira como um pai recebe o seu filho.

É quase como uma relação de consumo?
O filho hoje está muito ligado à ideia de um produto da tecnologia. Nesse processo você pode descartar um filho como qualquer outro produto, que pode ser recusado se não vem da forma como solicitado. O pai planeja tanto, racionaliza tanto esse filho, que perde toda a sacralidade, mais ligada ao acaso da espera, que hoje praticamente não existe.


E quais são os riscos desse tipo de relação?
Quando o pai trata o filho como um produto, ele não tem a relação de compromisso e de afetividade que um filho exige. Nós não somos só seres que fazemos, somos seres que pensamos, amamos, nos relacionamos com as divindades. Neste cenário, você pode ter uma sociedade com muito mais problemas sociais.


E tem como frear esse processo?
Eu acho que não. Eu pesquiso um autor, chamado Hans Jonas, que escreveu em 1979 "O princípio da responsabilidade", em que ele fala das consequências éticas do uso exacerbado deste viés técnico na vida humana. Ele fala, por exemplo, que nós estamos muito próximos do dia em que essa ciência que nos dá crianças como produtos vai fazer com que possamos ir na frente de uma máquina e escolher o filho que queremos ter. Se a gente recusa um filho porque não queria três, mas dois, logo podemos recusar aqueles que nascerem negros, homossexuais, ou com uma síndrome. O poder que a ciência nos oferece é muito bom, mas é perigoso. Ele precisa ser usado com ética, que é o que dá à ciência um certo limite, necessário principalmente quando afeta a vida humana.

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Na sequência existe o "O lado da ciência", não reproduzimos aqui, mas que é possível  acessar em: http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1112292&tit=Filho-virou-produto-de-consumo

3 comentários :

Everton Grison disse...

Muito interessante a opinião do professor. Reproduzo uma das frases que achei mais interessantes na explanação de sua opinião: "O poder que a ciência nos oferece é muito bom, mas é perigoso. Ele precisa ser usado com ética, que é o que dá à ciência um certo limite, necessário principalmente quando afeta a vida humana." Esta mesma técnica exacerbada que permite a "escolha de um filho" foi a tecnica que desmedidamente criou uma bomba atômica, que criou o gás que matou 6 milhões de Judeus. Isso não quer dizer que o problema esta na técnica, o fato é que o humano não sabe trabalhar com a tecnica a seu próprio bem, ele se utiliza dela para excluir o outro, tornando o outro que é provido de individualidade, história, consciência, VIDA, mero meio. Este tipo de posição tecnologica mercantiliza o individuo, tornando-o produto barato. Por enquanto excluímos os "defeituosos" e quando começarmos a excluir os negros, homossexuais, deficientes,estrangeiros? Ai percebemos o quanto o diagnóstico de Theodor W. Adorno (filósofo alemão pertencente a Escola de Frankfurt) tem fundamento: o projeto de educação pós Auschwitz consiste em manter "fresco" na cabeça das pessoas a atrocidade nazista, para que não se permita que volte a acontecer de outras maneiras e com outros nomes. O que estes pais fizeram foi um totalitarismo, exclusão do outro. É interessante recordar que isso não representa o fim dos tempos, somente o começo do muito que a tecnica sem limites nos demonstrará.

Jonas J. Berra disse...

Parabens Professor Jelson pela sua visão humana e crítica. Parabéns Everton pelo comentário (quase outro texto. Posso postá-lo da próxima vez).

Rosemari disse...

Devemos ainda pensar, que se continuarmos a aceitar esse tipo de situação, devemos também imaginar o que faremos com os "restos humanos e defeituosos" que o próprio homem julga sem utilidade.