7 de março de 2011

Canário na Gaiola

Por: Everton Marcos Grison 


            Um canário estava a voar, vivenciando sua liberdade de poder observar toda a natureza, dar rasantes, observar lá de cima e gozar um sentimento de poder fazer o que desse na telha. Mas aí sempre acontece algo com alguém que vive a própria liberdade!!!
Um safado capturou o canário e meteu-o numa gaiola, submetendo-o a dura pena de ver ao amanhecer e ao anoitecer, grades de ferro diante de si. Deu-lhe uma comida repetida, uma água num recipiente que o impediu de tomá-la da maneira que ele tomava no riacho, jogando ao mesmo tempo, água para todo o lado, alegre por poder viver e fazer o que bem entendesse.
Depois de ver tantas coisas (pessoas bobas passando diante dele e olhando, fazendo carretas, admirando sua desgraça, sua “pequenez”), acometido de raiva e revolta, colocou-se a cantar. E enquanto o grupo de “amebas humanas” acha que o canto do canário é lindo, ele canta rindo da cara dos idiotas, que não percebem que este canto é um protesto, uma maneira de responder às condições que foi submetido; grades, comida repetida e água numa lata.
Sentimo-nos como canários presos. Perdidos, danados sem poder nenhum, uns “caras” trancados, que têm que aceitar as coisas acontecendo, pois nosso grito parece ser em vão. Nos dizem: “Que pessimismo!!!” Mas isso não é pessimismo. É, sim, a análise de uma realidade que revolta.
Hoje, como muitos dias, esperamos a “porcaria” do ônibus. Nossa que linguagem, mas é a verdade, demorar 45 minutos para chegar é uma provocação. Tivemos que viajar em pé, como se fossemos “frangos” indo direto ao abatedor, submetidos a condições péssimas, vendo pessoas cansadas, descontentes, que nos poluem, enquanto nós as poluímos, pois não demonstramos alegria, mas sim revolta, cansaço, coisa que se tornou sinônimo de curitiano: cansaço, desânimo e revolta.
Estamos no ônibus e descobrimos que a passagem passará de R$ 2,20 para R$ 2,50. Aí alguém pode falar - Ah, mas são somente trinta centavos, nem vai fazer muita diferença -. Não vai fazer diferença no bolso deste desgraçado que nem pega ônibus, pois se pegasse, não falaria isso.
Engraçado que a notícia do aumento da passagem do ônibus em Curitiba ficou quietinha. A maioria das pessoas preocupadas com a diversão carnavalesca nem perceberam isso. Perceberão somente quando voltarem da festança. A esquerda está falida, seu “pio” (em analogia ao pio do canário) é tão fraco que ninguém a ouve. Isso quando ela se posiciona. A população nem dá mais atenção, conseguiram trancafiar as mentes numa gaiola, impedindo-nos de raciocinar, de questionar, e aí nos resta, como o canário, cantar para não piorar as coisas.
Segundo os boatos, que não parecem ter muito fundamento, o salário dos operadores dos ônibus aumentou, e por isso a passagem precisa aumentar. Duvidamos muito que este aumento de fato se destina para isso.
Uma coisa engraçada, pois outro dia aumentaram o SALÁRIO MÍNIMO e por pura coincidência a passagem do ônibus aumentou. Enfim, pagaremos R$ 2,50 por cada passagem utilizada. Semanalmente gastaremos R$ 30,00, e mensalmente R$ 120,00 (isso para quem gasta duas passagens por dia, coitados dos que gastam mais). Mas podem dizer - Isso não é muito, somente R$ 120,00 -. Agora coloquemos isso na ponta do lápis: um pai de família que ganha um SALÁRIO MÍNIMO e tem que gastar isso por todo mês em ônibus, terá dinheiro suficiente para dar conta das contas de sua família? Feliz daquele que consegue.
Não sobra dinheiro para fazer nada, nem uma viagem de férias ou mesmo um passeio legal com a família. O trabalhador brasileiro fica impedido de ter diversão. Para conseguir fazer alguma coisa, precisa se programar “um século” (metaforicamente) antes ou, parcelar a “perder de vista” (pejorativamente) no cartão de crédito.
Logicamente que alguém pode dizer que este “palavratório” de nada adianta. Bom, isso sabemos, nada adianta, pois fomos nós que votamos nos desgraçados que nos representam nas bancadas políticas por aí, que nos passam a perna (pois não cumprem as palavras ditas durante a campanha eleitoral) e ferram nossas vidas. Enquanto andamos como sardinhas dentro de uma linha de ônibus, eles voam de helicóptero, pois de carro esta difícil, o transito é muito engarrafado.
Estas palavras têm o mesmo efeito do canto do canário: se não servem como protesto, pelo menos faz o tempo passar, deixando-o um pouco menos entristecedor com a nossa voz, que ecoa sob o silêncio de muitos “canários” que estão preocupados com o carnaval e o Big Brother.

Um comentário :

Anônimo disse...

gostei muito isso e fato.